É inevitável, a economia da atenção está morrendo. Em um tempo no qual devemos prestar atenção nas coisas, nossa sociedade atingiu o limite. Porém, o game Fortnite conseguiu permanecer culturalmente relevante. E até mesmo crescer desde o seu lançamento, em 2017. Isso porque a Epic Games descobriu e entendeu como fazer as pessoas continuarem prestando atenção. 

Inclusive, "prestar atenção" ganhou um sentido mais econômico, a partir do momento que o nosso tempo vale dinheiro. No caso, passar pelo feed do Instagram ou do Facebook, vale uma grana. E muita. A indústria da publicidade se baseia na ideia de que, se você já ouviu falar de algo e consegue associa-lo positivamente, é mais provável que você compre o produto ou serviço. 

O que não é errado. Afinal, pessoas tomam decisões por motivos insondáveis até para si mesmas. E o tempo todo. Neste ponto, faz sentido monetizar a irracionalidade fundamental da humanidade. 

Mas, o que acontece quando a atenção da sociedade é inteiramente monopolizada? Um relatório divulgado pela empresa de pesquisa de mídia e tecnologia, MIDiA Research, ressalta o ponto de que a administração caiu em todo setor. Isso sugere que a economia de atenção atingiu o pico. 

Atualmente, os conumidores não tem mais tempo livre para alocar a atenção em busca de propostas de entretenimento digital. Nesse caso, é preciso priorizar. A tendência, segundo o relatório, persistiu por um tempo e só agora promete uma redução na receita. De acordo com o analista da MIDiA, Karol Severin, "a competição dentro da economia da atenção está agora mais intensa do que nunca". 

O principal problema é que a atenção não é dimensionada. Pelo público ter muito tempo disponível para receber anúncios, eles se tornam menos eficazes, pois estão em toda parte. 

O Fortnite 

E então, entra o Fortnite. Como o jogo mais popular do momento, ele representa uma parte substancial da economia de atenção. Isso porque o game é praticamente onipresente entre os menores de 18 anos, com suas microtransações gerando bilhões em lucros para a Epic Games. Tornou-se uma cultura compartilhada, com suas próprias piadas internas, referências e linguagem codificada. 

No entanto, a verdadeira genialidade da empresa está em como ela atende o público jovem. Acima de tudo, o Fortnite se tornou um lugar para "sair" com os amigos. Essa imensa popularidade e seu status como ponto de encontro deixa seus concorrentes preocupados com a economia da atenção. 

Em fevereiro, a Netflix revelou em seu comentário de ganhos em 2018 que eles competem mais com o Fortnite do que com a HBO. Isso porque, para a empresa de streaming, a métrica mais valiosa é o tempo de tela. E se as pessoas estiverem jogando Fortnite, elas não podem assistir séries. 

Com esse patamar, chegam os anúncios. Não é difícil de imaginar o Fortnite se tornando um lugar onde os anúncios são discretos, mas onipresentes. O jogo chegou a fazer um trabalho promocional para o lançamento da animação Wifi Ralph e chegou até introduzir o vilão Thanos, dos Vingadores, no game. 

O modelo do game também permite alterações invasivas. No caso, a cada dois meses, a Epic lança uma atualização massiva que revisa o mapa e os itens em destaque. E cada uma serve para os mesmos propósitos: trazer os jogadores de volta por mais tempo e evitar a competição com outros games do gênero. 

"Acredito que se trata mais de uma mudança cultural geracional. Fortnite está entre os primeiros [jogos] a criar um modelo de negócios verdadeiramente bem sucedido em vendas de itens digitais que não dão aos jogadores qualquer progresso no jogo. Eles são apenas cosméticos", explica Severin.

Ele continua explicando que, há 20 anos, as pessoas se definiam pelas roupas que usavam e o que ouviam. Atualmente, segundo ele, a imagem pessoal dos consumidores é definida no mundo virtual

O fato da Netflix reconhecer o game como concorrente é importante, porque signifca que as empresas de mídia digital estão começando a admitir que o crescimento não é infinito. E enquanto a Netflix não lança seu jogo de battle royale (já pensou?), ela seguirá experimentando seus conteúdos interatvos.  

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FONTE

Guilherme Pin

Jornalista, aspirante a crítico e roteirista de filmes, youtuber nas horas vagas e o Chandler M. Bing da roda de amigos.